A Biblioteca Municipal de Vila Real vista pelo jornal I

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Foi você que se esqueceu destas coisas no meio dos livros?
por Rosa Ramos, publicado em 16 de Março de 2010

Em Vila Real a história conta-se através de marcadores improvisados. A exposição "Coisas que aparecem no meio dos livros" termina no fim do mês.

coisas1 coisas2 "Lisboa, 15 de Abril de 1956. Querido João, as tuas notícias dão-me sempre muito prazer. E, quando elas me trazem..." A carta, escrita à mão em papel amarelado, termina aqui, de forma inesperada. Foi rasgada ao meio e transformada em marcador. Durante décadas, ficou esquecida nas páginas de um livro, no meio dos milhares que constituem o espólio da Biblioteca Municipal de Vila Real. Quase 55 anos depois, foi recuperada e faz parte da exposição "Coisas que aparecem no meio dos livros".

Desde logo, fica o indispensável aviso: são apenas quatro expositores discretos - à primeira vista, para quem viaja de Lisboa até Vila Real, pode parecer decepcionante. Mas os cem marcadores improvisados expostos - entre correspondência, insectos, recados, cábulas de estudantes ou anotações avulsas - contam histórias além dos livros e são o resultado de um trabalho de restauro e higienização do fundo antigo desenvolvido nos últimos três anos, depois da biblioteca de Vila Real ganhar novas instalações.
"Fazer este trabalho é ver-se confrontado com pequenos segredos que ficaram esquecidos. Pequenas curiosidades que o tempo e os livros decidiram preservar", explica o director da biblioteca, Vítor Nogueira. O mais natural seria que os marcadores fossem parar ao lixo. "É o mais fácil e mais rápido. Preservar dá mais trabalho, mas salva-se informação preciosa. É história, o que está ali. Achamos que os livros contam histórias e é uma obrigação de quem trabalha com estes documentos preservar essas memórias", justifica. A exposição está patente no átrio da biblioteca desde 12 de Janeiro e, inicialmente, era uma mostra "despretensiosa", destinada a cumprimentar os cerca de 300 leitores diários. Mas depressa se tornou num sucesso. De tal forma que foi prolongada por mais um mês.



Os marcadores São telegramas, cartões de visita, pratas de chocolates, trevos de quatro folhas, postais ilustrados, boletins da lotaria com mais de 50 anos ou, simplesmente, listas de compras. Sem nomes completos ou endereços de quem os possa recuperar. Até os insectos que corroem os livros foram aproveitados para integrar o espólio de "Coisas que aparecem no meio dos livros". Há aparas de penas - provavelmente do tempo dos conventos de São Domingos e São Francisco, que fecharam as portas no século XIX e cujas bibliotecas passaram a integrar o acervo da Biblioteca Municipal.

Há a enigmática dama de paus, cartões de leitura, facturas da Casa Portuguesa ou uma edição antiga das "Meditações dos cinco primeiros sábados" do Apostolado da Oração - com "apresentação esmerada e atraente", promete a capa. E as listas de compras das famílias de outros tempos, como esta, da década de 1960: "¼ de vinagre, 60 centavos. Pão, 2 escudos e 40 centavos. Alfavaca para dez dias. Pedra pomes. Bilhetes do eléctrico." No total, 29 escudos e 60 centavos. Ou as revelações mais íntimas e fervorosas como uma nota esquecida de frei António Bernardino que data de um dia 30 de Janeiro do princípio do século XIX: "Confessei-me com o padre Manuel de Prima." Mas o ponto alto da exposição será, porventura, a carta de 1938 de Marga Schmitz de Stein, uma judia exilada em Buenos Aires, que escreve ao então comandante nacional da GNR, o general Aníbal Vaz, a pedir ajuda para os pais. Era o tempo da Segunda Guerra Mundial. Apesar da exposição juntar perto de uma centena de marcadores improvisados, ainda só foi recuperado 10% do fundo antigo da biblioteca, que continua a ser trabalhado e tem 10 mil livros. Por isso, segundo Vítor Nogueira, "será sempre uma exposição inacabada" e que continuará a crescer.

Quatro anos antes de morrer, em 1886, Camilo Castelo Branco publicava "A Boémia do Espírito", em que se referia à Biblioteca de Vila Real pelas piores razões. O escritor descrevia o espaço como "uma desgraça literária, uma mole indigesta que nem a traça nem as ratazanas seculares [...] tinham ousado esfarelar". Justiça seja feita a Camilo Castelo Branco: na Biblioteca Municipal de Vila Real nada se perde com o tempo. Nem os livros do fundo antigo - muitos datam do século XV - e nem os marcadores improvisados de que os leitores se foram esquecendo nas páginas dos livros.
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