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Biblioteca Municipal de Vila Real
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A Biblioteca Pública de Vila Real está intimamente ligada, na sua origem, à extinção das ordens religiosas masculinas e à nacionalização dos seus bens, ocorrida em 30 de Maio de 1834.

Mas não se pode dizer que antes disso não houvesse em Vila Real acesso a núcleos de livros que, aliás, mais tarde constituiriam o acervo da Biblioteca. Assim, por exemplo, a livraria de José Teixeira de Melo e Castro, após a morte deste, foi doada pelo seu irmão António Teixeira de Melo e Castro aos religiosos do Convento de São Francisco, por escritura de 21 de Janeiro de 1821, destinada à ilustração dos religiosos e da população local. Tratava-se de um importante núcleo de 2.348 livros e folhetos. Da escritura de doação consta, entre outras cláusulas, que a livraria devia ser franqueada ao público que o desejasse. Estatui-se ainda que não podia sair da livraria qualquer obra, “privando por este modo do seu benefício os habitantes desta vila a quem pretende ele doante também beneficiar.” Em caso de contravenção ao estipulado, a administração da livraria passaria para a Câmara Municipal. De igual modo, a propriedade da livraria passaria para a Câmara Municipal, caso o convento fosse extinto ou os religiosos fossem mudados para outro convento.

Também as livrarias dos dois conventos (São Domingos e São Francisco) podiam ser franqueadas ao público, embora sob a vigilância de um religioso. A livraria de São Francisco era especialmente valiosa, e justificava por isso grandes cuidados, de que encontramos eco nos Termos das Visitas ocorridas no séc. XVIII. Aí se refere que é feita a verificação dos catálogos de livros (elencos, na linguagem da época), quer na livraria, quer na 1ª e 2ª celas dos irmãos pregadores. Quando se encontravam irregularidades, mandavam-se de imediato corrigir. Quando havia aquisições de livros, exigia-se a sua inclusão nos elencos e a sua distribuição por classes, assim como a sua colocação na estante adequada.

A criação da Real Biblioteca Pública da Corte em 1796, cujo alvará aparece registado no Livro de Registo Geral da Câmara Municipal de Vila Real, terá estimulado as Câmaras Municipais a transformar as suas livrarias em bibliotecas públicas. A Câmara Municipal de Vila Real foi uma das que manifestaram interesse em criar a sua. Prova-o, entre outros, o facto de em 1831 encontrarmos referências a um edifício que a Câmara andava a construir junto ao adro de São Pedro, para aí instalar os Paços do Concelho, a Casa da Audiência e também a Livraria Pública. Tudo leva a crer que o projecto não foi por diante.

Em 1836, ano em a Câmara se iria instalar na Rua da Amargura, a Rainha Dona Maria II oferece à Câmara Municipal o quarteirão do extinto convento dos religiosos de São Domingos, para os serviços do Município e Livraria Pública. Também nesse momento não foi possível concretizar a ideia, sobretudo por o convento se encontrar então ocupado por uma unidade militar e por em 1837 se ter verificado ali um grande incêndio que mais inviável tornou a pretensão.

No mês imediato à extinção das ordens religiosas, a Câmara Municipal nomeia depositários dos bens dos conventos extintos e nacionalizados. No âmbito destes bens encontravam-se as livrarias, em especial a de São Francisco, particularmente valiosa, e que incluía a livraria de José Teixeira de Melo e Castro, que nessa data passou para a propriedade da Câmara. A Câmara e a Fazenda Pública partilharam as responsabilidades relativas à sua segurança. Nomeou-se então, em Agosto de 1834, um encarregado que era simultaneamente administrador (não propriamente bibliotecário, uma vez que as livrarias se encontravam então fechadas). Era ele o Padre Joaquim de Jesus Maria Bandeira, que devia assegurar a guarda, a limpeza e a segurança dos livros.

Em 1838, a Câmara Municipal solicita e vê autorizada a possibilidade de tomar conta das livrarias que pertenciam à Fazenda Pública, propondo-se criar uma Biblioteca Pública. Em 22 de Outubro de 1839, Dona Maria II cria, por portaria, a Biblioteca Pública de Vila Real. Houve então que catalogar os livros, catálogo que ainda existe.

O catálogo então organizado permite-nos ter uma ideia sobre o acervo da biblioteca. Assim, o núcleo doado por Melo e Castro era composto por 2.298 volumes (a diferença em relação ao número que acima referimos deve-se ao facto de ser obrigatório catalogar à parte o núcleo das obras que se encontravam em duplicado, colocando-as à disposição da Comissão Administrativa do Depósito das Livrarias dos Conventos extintos, para serem colocados onde mais útil fosse). A livraria do Convento de São Francisco contribuiu com 1.965 livros, mais 12 cartas geográficas. A do Convento de São Domingos, com 633. Vem ainda catalogado um pequeno núcleo de 91 “livros que pertencem ao Dr. Gama”, assim como 41 volumes restituídos pelo Vigário-Geral Barroso. Finalmente, há 136 duplicações. Total: 5.164 livros.

Ao longo do séc. XIX, a Biblioteca Pública vai funcionando em condições precárias e muito insatisfatórias, em mais de um local. Camilo Castelo Branco dá-nos uma visão jocosa do que poderiam ser essas condições: «O nosso gabinete de leitura e de escrita era a Biblioteca Pública de Vila Real. (...) A falar verdade, a livraria era uma desgraça literária, uma mole indigesta que nem a traça nem as ratazanas seculares do extinto Convento de São Francisco tinham ousado esfarelar.» (Boémia do Espírito)

Em 1917 a Biblioteca Pública de Vila Real só possui 3.081 volumes, e tem cerca de 301 leitores. Ao longo da primeira metade do séc. XX funciona com dificuldades, vendo o seu acervo ligeiramente aumentado, contando em 1958 5.511 livros impressos.

No ano de 1960, o patr